Um dos argumentos utilizados por defensores da realização de uma única eleição para os órgãos de soberania é a poupança de recursos financeiros m momento de crise económico-financeira mundial que, como não podia deixar de ser, afecta Angola.
O argumento, segundo o qual fazendo uma única eleição, o país pouparia muitos recursos financeiros, já de si escassos, (estamos endividados até ao pescoço!), é, aparetemente, verídico. De facto, as eleições são caras. E uma eleição custa, financeiramente e em termos imediatos, menos do que duas, três ou mais.
Se olharmos para tal argumento de forma linear, e, tendo em conta o que já se designa por pensamento «evolutivo», será fácil concluir que se poupam ainda mais recursos se não realizarmos qualquer eleição.
«Evolutivamente» pensando e de forma atípica seria assim. Mas, quem assim pensa, certamente que se esquece de olhar à sua volta para perceber que não há, no mundo, nenhuma grande economia desenvolvida que não esteja alicerçada numa sólida democracia.
Do Japão ao Canadá, passando pela Europa, todas grandes economias o são, não pelos recursos naturais, como petróleo ou diamantes, mas, sim, porque adoptaram regimes onde a competitividade e o contraditório, dentro da igualdade de oportunidades, são a base.
Essas sociedades perceberam que, para se manterem no pelotão da frente, precisam também de tornar a sua democracia mais acutilante e actuante. Assim se explica que já em plena recessão económica, os americanos tenham gasto, em 2008, na última campanha eleitoral mais de 5,3 mil milhões de dólares, superando em larga escala todas as campanhas anteriores, inclusive a de 2004 que custou 3,9 milhões.
Parte substancial daquela astronómica quantia foi gasta em debates na rádio e televisão, sessões de esclarecimentos para informar o eleitorado sobre as diferentes propostas em jogo. Na mesma senda, a Alemanha, da reeleita chanceler Ângela Merkel, gastou, nas eleições de Setembro último, 64,7 milhões de euros, mais 1,8 milhões do que em 2005, antes da crise atingir o coração da Europa.
Não se conhece nenhum país que tenha adiado ou suprimido qualquer acto que dê forma à democracia, por causa da crise. A democracia é único dos regimes que possibilita a competitividade, a igualdade de oportunidades, a escolha livre dos melhores para governar, num determinado momento, a pluralidade, a diversidade e o contraditório e disso surge a evolução, o desenvolvimento, a modernidade.
A não realização de eleições livres, directas e transparentes, através do voto secreto ou a sua supressão, desemboca em regimes autocráticos que acabam em ditaduras. Desenganem-se aqueles que pensam viver em democracia, «canjonjando» nos seus custos. Se a democracia sai financeiramente cara em termos imediatos, o seu oposto - a ditadura - comporta custos sociais, económicos e políticos insuportáveis a médio e longo prazo.
Custos esses, facilitadores da bajulação, do culto de personalidade, do endeusamento que dão lugar ao clientelismo, nepotismo e corrupção, factores impeditivos do desenvolvimento. Só a democracia é capaz de criar mecanismos eficazes de defesa contra a corrupção.
A democracia, tal como a liberdade, é cara. A sua relação custo/benefício é que faz dela o melhor dos regimes actuais. «Não há um pouco nem mais ou menos democracia. É como estar grávida. Ou se está grávida ou não se está. Com a democracia acontece o mesmo. Ou se está em democracia e se respeitam todos os direitos e garantias ou não se está em democracia», dizia há dias, em Lisboa, Cristina Kirchner, Presidente da Argentina.
Por isso, as posições defensoras de redução dos actos que consubstanciam a democracia surgem como perigosas IVD (Interrupção Voluntária da Democracia), com todas as consequências que um aborto acarreta.
Para que a tolerância à corrupção atinja o nível zero é indispensável que os pressupostos de uma sociedade democrática sejam cumpridos. E esses passam primeiramente pela separação e respeito dos três principais poderes: legislativo, executivo e judicial.
Sendo a corrupção um crime, cabe aos tribunais, o local onde, em democracia, são punidos os criminosos, dar-lhe combate, incluindo de forma preventiva. Ao poder político compete criar as condições quer legislativas, quer materiais para que os tribunais exerçam as suas funções.
Em democracia, o poder político não manda nos tribunais, nem o poder judicial deve andar a reboque da agenda ou dos pronunciamentos políticos de A ou B. A politização dos tribunais é tão má quanto a «justicialização» da política. A Justiça deve procurar os corruptos, julgá-los e condená-los, como criminosos que são.
Não basta que os corruptos sejam destituídos desse ou daquele ministério e, em seguida, nomeados para um qualquer posto de maior ou menor relevância. É preciso criminalizá-los, como forma de moralizar a sociedade, para que a corrupção não compense.
Sem uma verdadeira independência dos tribunais e do seu principal aliado nesse combate — a comunicação social — a quem cabe o papel de denunciador, de alertante dos males da sociedade, qualquer tentativa de combate à corrupção será uma miragem. Uma comunicação social não espartilhada entre pública e privada. Os detentores dos meios podem ser públicos ou privados, mas o jornalismo tem que ser único.
Continua ...(Parte II)