segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Luanda é um luxo para poucos

VISTO DE FORA

por Bruno Garschagen, Publicado em 29 de Julho de 2009


A revista "Foreign Policy" saudava Angola por seu "espectacular crescimento económico". Estive em Luanda no final da semana passada e o que vi foi um estado policial e muita miséria

Você reconhece essa nação? O título da publicidade em formato de reportagem que a revista "Foreign Policy" publicou em sua edição de Maio/Junho saudava Angola por seu "espectacular crescimento económico". Por sua segurança e estabilidade política. Por seu poder regional para promover a paz. Quem pode duvidar de um país turbinado pela indústria petrolífera?

Estive em Luanda no fim da semana passada para uma série de encontros pelo OrdemLivre.org, o programa lusófono da Atlas Economic Research Foundation em parceria com o Cato Institute. É a cidade mais cara em que já pus meus pés. Não há calçadas para pôr os pés. Não há espaços nas ruas para tantos carros. Os veículos novos e importados driblam o tráfego intenso e a miséria que bate nos vidros em busca de clientes para produtos chineses de marcas famosas. Ou de uma mera esmola que drible a fome. Luanda parece recém-saída de um terramoto.

Construções decadentes são a moldura trágica para os poucos prédios novos e para as construções em curso. O lixo espalha-se no chão como folhas da relva. A cidade cheira mal. O transporte público é precário. Autocarro é um luxo reduzido e irregular. Não há táxi. Quem tem dinheiro aluga um carro com motorista. Quem não tem anda espremido em carrinhas lotadas. Ou a pé. Foi o que fiz.

Os pobres de Luanda vagam pelas esquinas. Grupos de homens concentram-se em vários pontos da capital. Os trabalhos disponíveis exigem qualificação. Muitos deles nem sequer sabem ler ou escrever. A taxa de iliteracia é de 32,6%, segundo o CIA World Factbook.

Luanda é um estado policial. É mais simples obter um visto de entrada para a China comunista. Quase mediram meu crânio e contaram meus dentes. No aeroporto, os sempre gentis funcionários da imigração olham com aquele semblante de vampiro esfomeado. No hotel, um formulário do governo solicita-me informações pessoais e objectivo da visita. Um gesto de boas-vindas um tanto excêntrico. A despedida? Guardas no aeroporto confiscaram todas as notas da moeda local. Não, não deram factura.

Estabilidade política? Como não? O presidente José Eduardo dos Santos está no poder desde 1979. Não vejo outra forma de garantir a estabilidade do que se manter no poder durante 30 anos. E daí? Vendo fotos de Luanda na década de 1970 e lembrando o que vi pessoalmente há alguns dias é impossível não pensar nas virtudes da estabilidade adquirida naquele país por aquela elite política.

Parte do país vai muito bem, obrigado. Mora em condomínios fechados afastados da miséria do centro. São os beneficiários do "espectacular crescimento económico" que perverte a ideia de um desenvolvimento cuja riqueza permite que grande parte da população saia da miséria.

O estado angolano exerce o monopólio da actividade económica e decide quem poderá desfrutar das benesses do sector petrolífero. O mercado, lá, não existe. Na lista de 141 países do Índice de Liberdade Económica do Fraser Institute, Angola aparece na penúltima posição. Notável.

As riquezas naturais de um país sob um governo autocrático funcionam como um muro perverso entre o Estado e a sociedade. Se o orçamento do governo não advém da riqueza produzida pela sociedade, a população perde o poder de pressão sobre a elite política. É convertida num estorvo que deve ser controlado.

A população ainda carrega no espírito e no corpo a desolação da guerra civil, encerrada há apenas sete anos. A riqueza exibida pelos poucos é um apelo muito forte entre os jovens desafortunados. É natural que prefiram integrar a elite a lutar por mudanças políticas que beneficiem os indivíduos e não apenas um grupo protegido pelo Estado.

Mas há uma minoria que nos permite alimentar a esperança, mesmo que a longo prazo, de reforma do statu quo. São estudantes, professores, jornalistas, advogados, intelectuais, que trabalham de forma isolada ou articulada para "desprivatizar" o governo angolano. São indivíduos que, no futuro, poderão repetir a mesma pergunta sem qualquer ponta de ironia:

"Você reconhece essa nação?"

Jornalista brasileiro e mestrando em Ciência Política e Relações Internacionais no IEP/UC


Comentário:Sem comentários.Para reflectir...

4 comentários:

asperezas disse...

welcome to Africa...

Ednei.rj disse...

Me desculpe o nobre amigo, mas acho que o mesmo pintou com cores muito fortes a situação atual de Angola.
Lógico que o país ainda tem muitas questões a serem resolvidas, e com certeza aos poucos está avançando neste sentido.
Porém, dizer que o povo angolano é mal educado, arrogantes e que "dirigem olhar de vampiro e esfomeado" acho de um tremendo mau gosto.

O povo de Angola é como o brasileiro, sempre acreditando que o país irá mudar. è assim meu amigo que avançamos para a solução dos problemas, não com pessimismo ou derrotismo.
Parabéns povo de Angola pela garra e perseverança.
Acredito que seja desta maneira que podemos vencer as diferenças, com Paz e perseverança.

cazimar disse...

Amigo Ednei

A informação, tem o valor que tem.

O amigo, nunca deverá esquecer-se, segundo o grupo angolano, Duo Ouro Negro, na sua música Lindeza, diz o seguinte:

Minha Terra, é Linda (Angola)
Todos gostam muito dela
Todos querem acorrentá-la
Todos querem roubá-la

Reflicta sobre a letra desta música, escrita à muitos anos, mas que é, muito actual.

Obrigada, pelo seu comentário oportuno.

Kandandos

Ednei.rj disse...

Sim, concordo plenamente com a letra da música. Por isso digo, caso alguém queira ajudar o povo de Angola, não deve ser através do estimulo a violência e ganância, mas sim através de trabalhos que contribuam para o enriquecimento do povo angolano. O país é lindo como o "Brasil", e uma receita que deu certo, temos aqui como exemplo: O "Brasil" um país irmão de Angola, com tanta beleza e tanta riqueza natural, recebe todos os povos de braços abertos, porém, sempre cuidando de sua soberânia. Acredito, seja uma boa receita a seguir, embora saibamos todos, temos muito a fazer..
Abraços