sábado, 7 de junho de 2008

Qual vai ser o futuro da " África made in China "



1ª Etapa

Sugestão literária

Relações de Cooperação China-África: O Caso de Angola

No âmbito das Relações Internacionais hodiernas, a China apresenta-se cada vez mais activa, coadjuvada pelas relações de cooperação que tem encetado gradualmente. Nesse sentido, as parcerias com o continente africano ajudam a consolidar essa posição. Por esse motivo elegemos esse relacionamento como objecto de estudo, procurando proporcionar um modesto contributo para uma matéria actual que poderá revolucionar o modus operandi das relações de cooperação entre os designados países do Norte e Sul e Sul-Sul.
O objectivo fundamental é contribuir para a reflexão sobre o paradigma das relações de cooperação Sul-Sul na conquista do desenvolvimento. A Cooperação China-África assume duas modalidades: uma multilateral, que abrange o conjunto dos países envolvidos nos Fóruns de Cooperação, e uma bilateral, que concerne ao relacionamento que a China desenvolve com cada um deles. Sobre esta última modalidade, dedica-se especial atenção às relações entre a China e Angola. O ponto de partida incide na política externa chinesa e a sua projecção de poder em África, uma vez que o país asiático assume-se como principal agente de intervenção numa cooperação que se quer mutuamente benéfica. E é precisamente sobre este aspecto que dedicamos urna análise crítica de molde a contribuir para a expli-citação de algumas questões que este relacionamento coloca.
Índice

I. Enquadramento Teórico das Relações China-África
II. A Estratégia da China em África
III. Antecedentes e Evolução das Relações Diplomáticas entre a China e Angola
IV. Objectivos da Cooperação China-Angola
V. Perspectivas da Relação de Cooperação China-Angola

2ª Etapa

Reconstrução e construção com mão de obra « made in China

- COOPERAÇÃO CHINA/ÁFRICA : Que interesses estão em Jogo?

A China está galvanizada como um emergente gigante económico mundial do séc. XXI. Isso preocupa os hegemónicos países europeus e os Estados Unidos da América que se sentem ameaçados, ou pelo menos perturbados, por aquilo que receiam ser a ocupação de seus espaços de mercados tradicionais e de influência geopolítica no Continente Africano.

O comunismo, o fantasma dos pretextos para fazer investidas a China e tentar manietá-la, com o fim da guerra fria perdeu validade, mas no seu lugar surge a questão dos direitos humanos e a relação de cooperação com os regimes desgostados como o Sudão e o Zimbabwe. Ou seja, vale para a China, hoje, o que não valeu, ontem, para as potências europeias e para as administrações norte-americanas, quando se tratou de apadrinhar durante décadas, ditadores e déspotas em África, apoiando e alimentando guerras entre vizinhos, tudo em nome de matérias-primas e manipulações geoestratégicas. Os africanos, esses, dum modo geral aplaudem com sinaléticas de boas-vindas à China. A esperança é o reforço de uma cooperação com trocas comerciais mais justas, e de relações com menos ingerências e imposições, e a partir duma experiência dum modelo de desenvolvimento mais próximo.

- COOPERAÇÃO CHINA/ÁFRICA : O que África ganha?

Para os governos africanos, segundo análises comuns, a China é uma nova fonte de investimentos e de bens de consumo duráveis ao baixo preço e um contrapeso útil aos Estados Unidos da América e à Europa. Beijing não condiciona o dinheiro que concede às diferenças ou inconveniências políticas, ambientais ou sociais, como foi e é prática dos parceiros tradicionais, americanos e europeus e no passado a URSS.

Na história recente, alguns desses condicionalismos resultaram em situações nefastas para as economias de alguns países africanos. O caso do modelo de privatizações e da indústria de castanha de caju em Moçambique é apenas um ínfimo retrato de como condicionantes de ajuda a investimentos estrangeiros provenientes do Ocidente, poderão ter levado, em determinadas situações temporais, milhares de pessoas ao desemprego e fomentado a corrupção, no lugar de tornar as economias mais dinâmicas através dessas indústrias.


Efectivamente, numerosos gestos de boa-vontade têm também contribuído para atracção que a China exerce - estruturas por toda a África, muitos dos quais, quase a título gratuito, para além de enviar médicos e fornecer bolsas de estudo. É neste âmbito que a china adoptou como política de cooperação com África o apoio às empresas chinesas que participam na construção de infra-estruturas em África, sendo que, tenciona intensificar a cooperação nessa área. Um outro gesto, visto positivamente pelos africanos, é a disposição da China em negociar "amistosamente" com alguns países a fim de ajudá-los a resolver ou a reduzir as suas dívidas para com a China, que continua apelando à comunidade internacional, especialmente os países desenvolvidos, que tomem acções substantivas para isenção e redução das dívidas dos países africanos.Em suma, não parece haver muitas dúvidas sobre a importância estratégica que a África representa para crescente desenvolvimento económico da China que implica cada vez mais necessidade em recursos, de que o Continente Africano dispõe.


De acordo com um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) de Agosto de 2007 o por Jian-Ye Wang e intitulado "What drives China"s growing role in Africa?", 62 por cento das importações chinesas provenientes de África foram de petróleo e gás, seguindo-se os minerais e metais (13 por cento). Com a alta de preços destas matérias-primas, é natural que os valores das importações também subam mais rapidamente. Em troca, a China exporta produtos manufacturados e máquinas e equipamentos de transportes.
Sendo actualmente o segundo maior consumidor mundial de petróleo, preparando-se para ultrapassar os Estados Unidos, cerca de um terço das importações chinesas de hidrocarbonetos têm origem em África. Graças às suas enormes reservas de carvão, a China depende menos do petróleo do que muitos outros países, mas nem por isso deixa de necessitar de compras externas. E, aqui, destaca-se o papel de Angola. Em 2005, este país representou mais de 50 por cento de todas as importações que a China fez de África, superando a Arábia Saudita como principal fornecedor. Segundo Christopher Coker, professor de relações internacionais da London Business School, o Sudão tem também um papel de relevo, valendo sete por cento das importações chinesas de petróleo, com a particularidade da CNPC ser o principal accionista individual da companhia que controla os campos de petróleo do país, cuja segurança é assegurada por cerca de 4 mil seguranças chineses.


No caso angolano, foi garantida uma linha de crédito de 4,4 mil milhões de dólares pelo Exim Bank, instituição financeira ligada às relações comerciais, para ajudar a reconstruir o país depois da guerra. Graças a esta linha de financiamento, o governo presidido por José Eduardo dos Santos pode prescindir do apoio do FMI, bem como das suas exigências de combate de maior transparência e combate à corrupção. O pagamento da linha de crédito, feita a taxas atractivas e que garante a entrada de empresa chinesas para reconstruir estradas e o caminho-de-ferro, será feito em petróleo, durante vários anos. No entanto tem havido "dificuldades para criar um número suficiente de projectos a financiar", o que pode significar que "algo não está a correr bem" com os créditos.

- À boleia do Estado

Não podendo competir através das tecnologias, as empresas chinesas usam outras tácticas. Além do apoio do Estado, fornecem os projectos "chave na mão", via Exim Bank, com projecto, financiamento e construção, em áreas que incluem edifícios públicos, estádios, etc. Depois, os preços cobrados são mais baratos, até porque a mão-de-obra não requer grandes compensações salariais por viver fora do país.




Hoje, a China já empresta mais dinheiro do que o Banco Mundial, sendo três vezes superior às ajudas dos países da OCDE. Só em 2006, o Exmin realizou empréstimos de 12,5 mil milhões de euros. Nos últimos sete anos as empresas conseguiram garantir contratos para construir, segundo o FMI, mais de 6000 quilómetros de estradas, 3000 quilómetros de caminho-de-ferro, e oito centrais eléctricas.


Além do combate pela captação de recursos, a China pretende garantir novos mercados para os seus bens e serviços, e ter em África plataformas de exportação. O investimento directo, a par dos empréstimos e importações, é uma das suas grandes apostas, e não é só nas áreas de matérias-primas que tem investido. No Zimbabwe, por exemplo, está no sector dos telemóveis, enquanto na Etiópia a aposta é no sector farmacêutico.

Das cerca de 800 empresas que estão a investir em África, o FMI estima que apenas cerca de 100 sejam estatais. Como exemplos, este organismo menciona a Huawei, de telecomunicações, como sendo o maior fornecedor da tecnologia sem fios CDMA, os 400 milhões de dólares que a ZTE vai aplicar nas telecomunicações em Angola, as cerca de vinte pequenas e médias empresas que produzem materiais como colchões na Serra Leoa, a Hashan e os seis milhões que investiu na indústria de sapatos na Nigéria, ou os têxteis na Zâmbia.

Aproveitando os laços económicos para intensificar as ligações políticas, necessárias a nível mundial para fazer face aos EUA, e ganhar aliados no isolamento de Taiwan, a China tem também a estratégia de se expandir a nível cultural, com a abertura de escolas, centros de línguas, intercâmbios e bolsas.



- Focos de tensão

O aumento das exportações chinesas para os países africanos tem também lados negativos, afectando a indústria local. O mesmo se passa no resto do mundo, aliás, mas aqui o impacto parece maior, já que a capacidade de reacção é diminuta. Diversas fábricas já fecharam no Quénia, Lesoto, África do Sul e Suazilândia. Em Outubro do ano passado, um artigo da revista "Economist", além de referir que a estratégia chinesa não ajuda a diversificação da produção, relatava os impactos da chegada de produtos baratos, cada vez mais abrangentes, que competem vitoriosamente com a oferta local. Da mesma forma, as empresas chinesas presentes nestes países, com elevadas taxas de desemprego, recorrem pouco a mão-de-obra local, provocando tensões sociais, já patentes em países como a Zâmbia.


Estima-se que haja entre 75 mil a 78 mil chineses em África, de forma mais ou menos permanente, provocando interrogações sobre se estará a decorrer uma espécie de vaga colonizadora de um território com 1,3 mil milhões de pessoas para um continente bastante despovoado. Um artigo da revista "Global Business Perspectives", publicado este ano, cita o responsável da Câmara de Comércio do Chade, que espera a chegada de cerca de 40 mil chineses ao seu país nos próximos anos. À medida que se vão instalando, os novos habitantes tendem a chamar mais imigrantes, nomeadamente os familiares.


- Uma lança na África do Sul

O último grande passo da marcha da China para o continente africano ocorreu em Outubro de 2007, quando o Industrial and Commercial Bank of China (ICBC) comprou 20 por cento do sul-africano Standard Bank. O negócio, avaliado em cerca de 5,5 mil milhões de dólares, representa o maior investimento neste país desde o fim do "apartheid", e junta o maior banco africano com o líder chinês, que é também a instituição bancária com maior capitalização bolsista do mundo. No caso dos chineses, a operação mostra que os investimentos já não são apenas para deter a maioria do capital, apostando em participações minoritárias para ganhar acesso a mercados e ao conhecimento

Recolha de alguns dados em: www.publico.pt


Comentário: Com tantas facilidades.Com tantos gestos de boa-vontade.Com tantos biliões nos cifrões.Com tantos chineses a invadirem os recursos naturais.Com taxas de juros tão baixas.Com tanta cegueira.Até um cego, é capaz de ver, mesmo que tenha nascido com os olhos em bico, quando a « esmola é muita.O pobre deve desconfiar»

Perante a dimensão desta invasão, apetece perguntar :

- Qual vai ser o futuro de África/Africanos?
- Qual vai ser o futuro de Angola/Angolanos ?


5 comentários:

fernando baião disse...

Em primeiro lugar, os meus parabens pelo artigo apresentado, mas pergunto será que a China vai "comer" a África? Os problemas que começam a aparecer nos vários países africanos nas relações com os chineses, são o principio do fim da grande expansão chinesa, neste continente. O africano, para o mal e para o bem, sempre fez parceria com o europeu( estou a falar de raça e costumes) e os longos anos que viveram juntos,infelizmente, nem sempre da melhor maneira, não deixaram de criar laços que são dificeis de quebrar. Isto tudo para dizer, que o africano tem grandes desconfianças, como disse e bem, quando a esmola é grande o pobre desconfia.Em Angola, na necessidade de ganhar as eleições que se aproximam, o partido no poder avançou para os empréstimos chineses a baixo custo(?)a fim de iniciar e concluir obras de grande impacto, susceptíveis de impressionar eleitorado e com o chamariz de dar emprego a milhares e milhares de angolanos. Mas nem tudo corre às mil maravilhas e as queixas começam a surgir antes mesmo do pleito eleitoral.Penso eu, que após as eleições as "makas" com os chineses vão se agravar e a entrada "triunfal" dos mesmos vai esmorecer. Não é só a nível económico, também a nível social o problema se agudiza.

cazimar disse...

Caro fernando, da forma como a China invade os países com os seus interesses, acha que ela vai deisitir dos seus objectivos ou sair dos terrenos fácilmente?

* Já não falando dos objectivos geoestratégicos que o continente africano oferece à China relativamente a potências como USA, Europa, pela soberania e controle mundial económico dos mercados.

* Penso eu, que os africanos ao negociarem com a China, não sabem onde se meteram e com quem se meteram, e que não vai ser assim tão fácil aos africanos livrarem-se dela.Mas...

fernando baião disse...

Dificil vai ser, não se entra em força e logo se sai de mansinho, sobretudo para um país como a China. Já todos ouvimos falar da "paciência do chinês", mas como a esperânça é última a morrer, acredito, que, em Angola, a coisa vai piar mais fino. Já tivemos o exemplo com a refinaria do Lobito, onde os chineses queriam que a mesma só refinasse para eles e nós demo-lhes com os pés. Não é muito, mas já dá para entender, penso eu.

cazimar disse...

Será melhor então adoptar a medida de : Um olho no burro de carga, outro no chinês

*A paciência do chinês pode ser infinita.E depois até quando esperar que saiam de mansinho (500 anos?).
*Quais serão as consequências para o angolano pela demora na saída em termos de conflitualidades sociais e laborais(sem falar dos conflitos económicos) ?

*Este assunto é muito complexo.É só facilidades para entrar.Eu não acredito que a China aceite sair, seja de onde fôr sem elevadas contrapartidas, até porque a ajuda prestada pela parte dos seus compromissos, foram concedidos com taxas baixas.

*Quase certo é que vão ser as novas gerações de angolanos a pagarem estas facturas dos acordos e facilidades concedidas exclusivamente para o acto eleitoral que se avizinha a passos largos

*Lá como cá, é sempre o mesmo, quem vier atrás que feche a porta e resolva os problemas quentes deixados pelos incompetentes anteriores.Mas neste caso pessoal, não estamos a falar de um país qualquer.Estamos a falar da China.

fenando baião disse...

É verdade. A China é um país que "assusta" não só pelo seu potencial económico, como pela sua população. Não vai ser fácil não, "correr" com eles, depois de entrarem com empréstimos ao preço da chuva, em declarada concorrência com os spreads aplicados pelos paises ocidentais. Angolano genuino,já não gosta muito do mulato, agora com mulatos chineses, não acredito que vá na onda. Eles também não são muito de se juntar com os africanos, mas nunca se sabe, o mundo está a dar tantas voltas!!!