sábado, 1 de março de 2008

Angola: Radioterapia chega pela primeira vez ao país, casos de cancro detectados aumentam significativamente


Fonte: Lusa


Os doentes de cancro, cujo número de casos detectados subiu "significativamente" em 2007, vão poder fazer, dentro de poucos meses e pela primeira vez, o tratamento de radioterapia em Angola.

A impossibilidade de aceder ao tratamento por radioterapia em Angola tem sido uma das principais causas da transferência de pacientes para o exterior, com mais de 20 por cento da totalidade dos doentes que saem.

O anúncio da realização em Angola tratamentos de radioterapia foi hoje avançado à Agência Lusa pelo director-geral do Centro de Oncologia de Angola, Fernando Miguel.

Segundo Fernando Miguel, Angola está a contar com o apoio da Agência Internacional de Energia Atómica das Nações Unidas para a implementação deste serviço.

O arranque dos tratamentos poupará ao Estado angolano milhões de dólares gastos com as viagens de doentes para países estrangeiros, nomeadamente para Portugal, Brasil e África do Sul.

"A falta de enquadramento legal para o uso de energia atómica em Angola era o principal impedimento que havia, mas com a sua aprovação - em 2007 - vamos, dentro de poucos meses, começar a usar este método de tratamento", disse Fernando Miguel.

O director-geral de oncologia afirmou que o último passo para se dar início à actividade é a criação das autoridades que irão regular esta área.

Relativamente à situação do cancro em 2007, Fernando Miguel afirmou ter havido "um aumento significativo" comparativamente ao ano anterior com o surgimento de mais 813 novos casos.

Em 2007 acorreram ao centro 7.297 pessoas, tendo 813 recebido a confirmação de que sofriam de cancro.

Também no ano passado, na consulta de mastologia, uma área especializada apenas para a prevenção ou despiste do cancro da mama, foram observadas um total de 10.098 pacientes, entre as quais 6.560 eram novas doentes.

"Este é o total possível de apuramento no país, mas não reflecte a situação real", salientou Fernando Miguel, acrescentando que, perante essa falha, foram criados núcleos provinciais com pessoal formado para detectarem os primeiros sinais de cancro.

"Não havendo capacidade de estar presente em todo o sítio escapam-nos muitos casos", sublinhou Miguel, explicando que na origem desta situação está também a existência no país de quadros epidemiológicos em que predominam as doenças da região (paludismo, cólera, febre tifóide, doenças diarreicas e respiratórias agudas), que deixa distraídos os técnicos para pensarem nas doenças oncológicas".

O desconhecimento da existência da doença é apontado por Fernando Miguel como um dos principais motivos para este "número irreal".

Por isso nos últimos anos o centro, com o apoio do Ministério da Saúde de Angola, passou a apostar nas campanhas de divulgação do cancro nos meios de comunicação social e placares publicitários.

O director do centro referiu também da falta de pessoal qualificado para suprir as exigências do momento, informando que existem para todo o país, com uma população estimada em cerca de 16 milhões de pessoas, apenas dez médicos especialistas, seis deles de nacionalidade cubana e quatro angolanos.


"Neste momento temos mais oito médicos em formação no país", adiantou Fernando Miguel.

Relativamente aos apoios, afirma que contam sobretudo com o do Estado, mas existem ainda ajudas de Portugal, Espanha, Brasil e Cuba.

"Estamos em contacto com a direcção do Instituto Português de Oncologia (IPO) de Lisboa no sentido de criamos um convénio para salvaguardar todas as nossas necessidades, já que Angola em relação a Portugal ainda está muito atrás", disse Fernando Miguel.

Segundo o director, o centro pretende com esta cooperação apoios de aconselhamento científico, na formação de médicos e técnicos e na retaguarda do tratamento dos pacientes.

"Foram esses os acordos que nós tentámos explorar com a direcção do IPO, tendo já começado com o envio de 14 técnicos de enfermagem para formação em Lisboa e também no aceleramento do envio de doentes em tratamento para Portugal", salientou.

Mas, para Fernando Miguel, o contacto com "colegas mais experientes" é o maior proveito que podem retirar destas colaborações com o exterior para vencer os grandes obstáculos que ainda perduram no centro.

O Centro Nacional de Oncologia existe desde a década de 60, mas o período pós independência até ao fim da guerra, há quase seis anos, fez com que fosse relegado para segundo plano nas prioridades do Estado, tendo sofrido uma reabilitação e modernização há cerca de dois anos, num investimento de 1,8 mil milhões de euros.

O Ministério da Saúde angolano, que começa agora a dar mais importância à doença, tem em elaboração um Plano Nacional de Controlo e Luta contra o Cancro, devido ao carácter progressivo da doença, e lançou uma campanha dirigida às comunidades para atenuar os efeitos da patologia.

O cancro doença que, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), poderá chegar até 2020 aos 804.000 casos em África, era até recentemente pouco conhecida entre os angolanos, que julgavam tratar-se de uma doença dos países desenvolvidos.


"As pessoas pensavam num passado recente que no país não havia doenças como o cancro, mas hoje em dia está provado o contrário e já se vê que as pessoas morrem de cancro", concluiu Fernando Miguel.


Comentário: Uma boa notícia.Vai evitar muitas viagens e o respectivo desconforto, para quem eventualmente possa padecer desta doença.




1 comentário:

Sónia disse...

Como é possivel concorrer para técnico de radioterapia para este serviço? Agradeço resposta.